terça-feira, 30 de setembro de 2014

Chegando em El Chaltén

Antes mesmo de começar a nossa viagem pela Patagônia, eu e meu amigo já tínhamos traçado uma linha mental entre Esquel e El Chaltén. Era a divisão do roteiro em 2 partes bem distintas - na primeira (Bariloche, El Bolsón e Esquel), muito calor, muitos bosques e lagos para visitar; na segunda, muito frio e muitos glaciares em El Chaltén, El Calafate e Ushuaia

Essas 2 regiões da Patagônia argentina, bem diferentes entre si, estão separadas por mais de 1.000 km. Como em todo esse espaço não achamos nenhuma atração que valesse a pena, resolvemos encarar de uma vez só essa distância. 

A estrada é muito deserta (tanto de pedestres como de veículos), e às vezes o asfalto é precário e obriga os veículos a andarem bem devagar. O que mais se nota e o que eu achei mais incrível é que a gente anda horas, horas e horas e a paisagem parece nunca mudar! E estamos falando de 23h de viagem!!!





5 horas depois...





5 horas depois...





Parece que estamos chegando...




O máximo que você consegue ver de diferente, de vez em quando, são guanacos - um animal nativo da Patagônia, mais ou menos uma mistura de lhama com camelo. 

Essa estrada longa e interminável é a famosa Ruta 40, a rodovia mais extensa da Argentina, que segue paralela à Cordilheira dos Andes e liga o país de norte a sul em 5.224km!




Abaixo, confira o longo trecho Esquel - El Chaltén:




No dia 7 de fevereiro, às 21h, embarcamos no ônibus sem remorso de deixar Esquel para trás. Foi lá que tudo deu errado para nós - tivemos o problema com os cartões, perdemos mais de um dia de viagem, não visitamos os Túneles de Hielo e Los Alerces tinha sido estressante demais. Nossa esperança era que essa nuvem negra saísse de cima de nós na segunda etapa da viagem, e por isso estávamos muito ansiosos para chegar logo em El Chaltén. Uma coisa pelo menos era certo que ia melhorar: a temperatura! Não estávamos mais suportando tanto calor e, pela previsão, o sul da Argentina estava até com temperaturas negativas! Uma verdadeira bênção para quem não aguentava mais ver o suor escorrer pelo pescoço!

O trajeto de ônibus, apesar de ter durado quase um dia, não foi tão cansativo quanto imaginávamos. O ônibus estava praticamente vazio, e por isso cada um de nós ocupou 2 assentos. Conseguimos deitar e dormir tranquilamente durante a noite inteira e mais um pouco! Durante o dia seguinte, fizemos diversas paradas no caminho, o que amenizou bastante a monotonia da viagem. E quando vimos, inesperadamente, eis que surge diante de nós a impressionante visão do Monte Fitz Roy, todo coberto de neve! Eu, que sou fã número 1 do frio e da neve, já estava me sentindo mais feliz do que em toda a primeira parte da viagem! Era sinal de que havíamos chegado realmente ao sul do país - aquela região extrema e gelada que tanto nos atraía!

Desembarcamos na estação rodoviária de El Chaltén pelas 20h (muito pontualmente), vestimos nossos casacos (aleluia!) e fomos direto para a pousada que tínhamos reservado pelo site booking - novamente, a mais barata da cidade! Podíamos perfeitamente ter chegado lá caminhando, mas já que não conhecíamos a cidade e não sabíamos exatamente a distância - e também porque estávamos com a bagagem toda - resolvemos pegar um táxi. Saiu menos de R$ 10, e por isso valeu muito a pena! 

Com o nome de La Guanaca, a pequena pousada tinha capacidade para apenas 4 pessoas, divididas em 2 quartos duplos. Tratava-se um grande sobrado de madeira, onde no primeiro andar moravam os donos e no segundo os hóspedes. Confesso que nossa primeira impressão não foi das melhores, pois a escadinha parecia estar caindo aos pedaços, de tanto que rangia! Além disso, na foto do quarto que tínhamos visto na internet havia uma grande cortina fechada em uma das paredes - que nós, como qualquer mortal, supúnhamos que encobrisse uma janela. E não é que realmente tinha aquela cortina no quarto, mas atrás dela tinha só a parede??? Tivemos que rir para não chorar!

Pouco tempo depois, já tínhamos esquecido da escada que rangia, e a pegadinha da cortina era apenas motivo de piada. Os donos da pousada, um casal de 30 e poucos anos, eram tão simpáticos e prestativos que compensavam qualquer incômodo. Eles conversaram bastante com a gente, se esforçando para falar português (uma coisa rara), deram dicas sobre os melhores lugares para visitar, sobre onde comer, o que levar nas trilhas, nos chamaram para ver o filho recém-nascido deles, deram altas gargalhadas e nos ofereceram mate. Impossível não se sentir em casa com a Victoria e o Marcelo!

Como era noite e já estávamos morrendo de fome, fomos logo jantar antes que os poucos restaurantes fechassem. Comemos uma massa muito boa no restaurante mais próximo, cujo nome era Mafalda, Matilda, Marilda ou alguma coisa parecida. 

Em seguida voltamos para La Guanaca e continuamos o papo com o alegre casal. Comentamos sobre o nosso problema com os cartões, e eles já nos indicaram o endereço do correio da cidade, onde retiraríamos o dinheiro na segunda-feira. Também riram e disseram que, em El Chaltén, de nada vale ter um cartão de crédito, já que nada funciona lá - nem celular, nem internet e muito menos máquinas que passam cartões! A Victoria tinha o plano mais caro possível de internet, e mesmo assim sofria para trabalhar com as reservas da pousada no booking. O meu celular (Tim), desde o momento em que pisamos em El Chaltén até a hora em que saímos, ficou completamente sem sinal. É uma aventura!

Como a previsão para o dia seguinte era de mais sol (estávamos tendo muita sorte!), fomos dormir ansiosos, pensando nas trilhas que nos aguardavam logo pela manhã.

No próximo post você vai ler um texto escrito por mim e publicado no site O Viajante. Quer entender um pouco mais sobre El Chaltén, e descobrir por que essa cidade atrai trekkers e montanhistas de todo o mundo? Então não perca, é amanhã no blog!
















segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Perdidos em Los Alerces

No post anterior, contei que a nossa programação em Esquel compreendia 2 atrações - os Túneles de Hielo e o Parque Nacional Los Alerces

Se tivéssemos apenas um dia para ficar na cidade, certamente escolheríamos os túneis, que eram algo bem diferente do que vínhamos conhecendo desde Bariloche (lagos, montanhas, bosques, etc). Porém, quis o destino que TUDO desse errado em Esquel, e com isso não conseguimos vaga para essa excursão. Restou o nosso prêmio de consolação, o Parque Los Alerces - que, como vocês já vão perceber, deu continuidade às desventuras em série que estávamos sofrendo!




Como nós passaríamos o dia no parque e à noite já embarcaríamos no ônibus para El Chaltén, já fomos com as malas prontas de manhã cedo para a rodoviária de Esquel. Deixamos toda a bagagem lá, em um armário alugado por R$ 5, e separamos somente as nossas mochilas (com algum dinheiro, lanches e muita água) para passar o dia em Los Alerces.

Pelas 8h, pegamos o ônibus em direção ao parque. O preço da passagem varia de acordo com o ponto onde você desce - existem 4 possíveis paradas dentro do parque. Nós optamos por descer na do Lago Verde, pois ouvimos dizer que era dali que saía o percurso mais interessante. Para isso, pagamos 50 pesos - aproximadamente R$ 13.

Seguimos a indicação das placas e entramos na trilha do Mirador do Lago Verde. No começo foi muito legal, a trilha era bem diversificada, passava por todo tipo de paisagem e nos contemplou com uma vista panorâmica do lago. Realmente um lugar de beleza excepcional!






O problema foi depois! Saímos dessa trilha e queríamos descer até o lago para tomar um banho - afinal, aquela onda insuportável de calor ainda não tinha nos abandonado. Foi aí que o parque falhou na sinalização, e essas marcas de azul com branco da foto, que tinham nos guiado até então, simplesmente desapareceram!





Nos vimos então completamente perdidos lá dentro! Já tínhamos saído da trilha no meio do bosque, e estávamos na estrada de terra que corta o parque - só não sabíamos para que lado tínhamos que andar e não havia sequer uma placa com indicação! Olhávamos ao redor e não havia uma única pessoa caminhando por ali - eram só carros que passavam. Nossa única companhia foi um gambá morto que encontramos estendido no chão.




Foi aí que percebemos como tínhamos sido idiotas de querer conhecer a pé um parque daquele tamanho! Los Alerces tem dezenas de atrações, só que é tão grande que a pé você mal consegue ver um lago! Ir até lá sem ter um carro para se locomover foi quase tão terrível quanto a excursão de ônibus pela Rota dos Sete Lagos.

O único jeito de sabermos para que lado caminhar era perguntando para o motorista de algum carro. Ficamos um tempão tentando parar os veículos, mas NINGUÉM nos dava bola! Que ódio mortal desse povo que se recusa simplesmente a parar para dar uma informação! Caminhar por horas a fio debaixo daquele sol, sem saber para onde se está indo, não é uma experiência que eu pretendo repetir!

Comemos nosso almoço (os sanduíches que havíamos levado) e estávamos quase nos jogando na frente dos carros quando finalmente a sorte nos sorriu e um enorme motorhome desacelerou ao perceber o nosso desespero. Era um simpático casal de franceses, que se colocou à nossa disposição e nos mostrou no mapa que estávamos caminhando para o lado errado esse tempo todo!!! Além disso eles nos deram muita água, pois a nossa já estava acabando.

Demos meia-volta e começamos a andar no sentido contrário, voltando tudo aquilo que já havíamos caminhado. Pelo menos agora tínhamos certeza de que estávamos indo para o lugar certo! MUITO tempo depois, conseguimos alcançar o Lago Verde - mas eis que havia uma cerca impedindo a nossa passagem! Depois de passar o dia inteiro caminhando e pingando suor, não poderíamos nem chegar perto do lago??? Era isso mesmo??

Nem preciso dizer que pulamos a cerca e entramos correndo no lago - que não tinha nada, nada, NADA de bonito! Não sei por que cargas d'água elogiam tanto esse lugar, acho que quem fala bem do Lago Verde nunca deve ter conhecido outro lago na vida. Pelo menos a água era bem gelada - tudo o que nós precisávamos para sufocar aquele calor infernal!





Depois de um descanso merecido, estávamos famintos novamente e tomamos uma pequena trilha até um restaurante. Chegando lá, mais um absurdo - os preços do cardápio nos faziam pensar que estávamos na Escandinávia, ou em plena Champs Elisées. E o pior era que eu estava com TANTA fome que me vi obrigado a pedir alguma coisa - afinal, isso era por volta de 5h da tarde, e o nosso ônibus só sairia de lá pelas 7h. Escolhi o sanduíche mais barato - com frango, rúcula, mel e mostarda, que custou mais de R$ 20! Ideal para quem estava sem dinheiro e querendo economizar ao máximo para sobreviver mais uma semana.

Pelo menos o sanduíche estava bom, disso eu não posso me queixar. Pelas 7h, nos dirigimos até o mesmo ponto onde havíamos descido de manhã e pegamos o ônibus de volta para Esquel. Chegando na rodoviária, resgatamos nossas bagagens no armário alugado e ficamos esperando até embarcar no nosso ônibus, que saía às 21h. Compramos, na lanchonete da rodoviária, comida suficiente para toda a longa viagem de 23h que nos aguardava.

Estávamos exaustos depois de um longo dia caminhando (inutilmente) no Parque Nacional Los Alerces. Não vou dizer que não fiquei traumatizado, mas um dia ainda pretendo voltar lá, só que DE CARRO e com um GPS muito bom! Se não for assim, não vale a pena!




No próximo post, deixamos para trás o calor e vamos finalmente ter a chance de usar as roupas de frio que até então nem tinham saído da mala!

El Chaltén nos espera pelos próximos 4 dias - seguramente os melhores de toda a viagem! Não perca, é no próximo post!









domingo, 28 de setembro de 2014

O que fazer sem dinheiro em Esquel

No post anterior eu fiz bastante propaganda do Western Union, uma empresa que trabalha com transferências internacionais de dinheiro e é o salva-vidas de quem está pobre no exterior, na iminência de ter que lavar louça no hotel para pagar a diária!

Isso aconteceu comigo durante minha viagem à Patagônia. Meu tio, diretamente de Porto Alegre, depositou R$ 4.000 em uma agência da Western Union chamada Fair, localizada em frente ao shopping Iguatemi. Ao entregar a quantia e solicitar o envio, ele teve que preencher uma ficha completa e rigorosa com os dados dele e os dados de quem retiraria o dinheiro - no caso, eu. Nesse formulário extenso não pode haver rasura e nenhuma letra ou número errado ou ilegível. Se isso acontecer, eles não entregam o dinheiro - ou seja, fazem o possível e o impossível para garantir que a transação ocorra de forma segura.

Como meu tio fez o depósito dia 06/02, quarta-feira, o valor estaria disponível para mim um dia depois, 07/02, quinta. Logo, no dia seguinte já estaríamos ricos outra vez e não teríamos mais nenhum problema com dinheiro até o fim da viagem.

Mas a história é mais comprida!




Basicamente, nossa programação para Esquel contemplava 2 grandes e promissores passeios: um ao Parque Nacional Los Alerces e outro aos Túneles de Hielo (túneis de gelo). Para Los Alerces, sabíamos que era possível tomar um ônibus da cidade até o local e percorrer o parque por conta própria. Já no caso dos túneis de gelo, não havia outra forma de conhecer o local senão contratando uma excursão guiada. Apesar de o preço do tour ser bem caro (R$ 90 por 6h de duração), as fotos que tínhamos visto na internet nos obrigaram a procurar uma agência!


Fonte: http://www.lugaresdeviaje.com/nota-galeria/1699/foto/21870

Quando chegamos lá, fomos informados de que esse passeio deve ser reservado com pelo menos uma semana de antecedência, pois é muito procurado e as vagas se esgotam rapidamente. A próxima data em que havia vaga era só dali a uma semana, e então saímos da agência com o rabo entre as pernas e muito desapontados. Não tínhamos todo esse tempo para ficar em Esquel, e teríamos que sair de lá sem conhecer justamente o que mais queríamos!

Restava, então, o Parque Nacional Los Alerces, famoso por sua infinidade de trilhas entre lagos, montanhas e florestas de alerces - uma árvore conhecida aqui como cipreste. Fomos até a rodoviária para pegar um ônibus até lá, e acabamos tendo mais uma decepção! Os ônibus de Esquel a Los Alerces saem bem cedo de manhã e só retornam no final da tarde. Àquela hora (umas 10h) não havia mais nenhuma linha de ônibus para lá, e o passeio teria que ser deixado para o dia seguinte.

Começamos a ficar bem irritados com Esquel. Não aceitaram nossos cartões de crédito, não conseguimos ir aos Túneles de Hielo, já havíamos perdido todo o dia anterior e agora mais um dia estava sendo jogado no lixo!

Aproveitando que estávamos na rodoviária, já compramos a passagem para El Chaltén, que seria nosso próximo destino. Existe uma linha de ônibus entre Esquel e El Chaltén, que só opera nos dias ímpares, e demora 23h - quase um dia inteiro dentro do ônibus!!! Escolhemos a data de 07/02, o dia seguinte, pois o ônibus saía às 21h, e assim teríamos tempo para passar o dia em Los Alerces antes de viajar. O preço, cerca de R$ 250 por pessoa, mais uma vez teve que ser pago em espécie - e com isso, nossa situação - que já era grave - ficava ainda pior! Esperávamos do fundo do coração que desse tudo certo com a retirada do dinheiro no dia seguinte!

Foi aí que nos demos conta que, se pretendíamos conhecer o parque Los Alerces, passaríamos o dia inteiro fora da cidade - e portanto não poderíamos pegar o dinheiro no correio! Além disso, às 21h pegaríamos o ônibus para El Chaltén, e passaríamos a sexta-feira toda dentro do ônibus, chegando bem tarde ao destino. Por fim, os dias seguintes seriam sábado e domingo, e os correios não estariam abertos!

Como vocês podem ver, parecia que estava acontecendo uma conspiração contra nós! O dinheiro, que era para ser recebido na quinta-feira, teria que esperar até segunda para ser retirado! Até lá, teríamos que nos virar com os poucos pesos que tinham sobrado quando trocamos dinheiro com a Sra. Cristina, da loja La Estación (ver no último post). Esperávamos que mais nada de muito caro nos esperasse pela semana, afinal estávamos com as despesas severamente contadas até segunda! Para piorar, em El Chaltén pretendíamos fazer uma excursão de caminhada no gelo - ice trekking - e ela estava prometendo não ser nada barata.

Chegamos a cogitar pegar o dinheiro no dia seguinte (quinta-feira) de uma vez, ao invés de fazer o passeio a Los Alerces. Mas se não o fizéssemos, não teríamos outra oportunidade - afinal, pela noite já estaríamos mudando de cidade. E também, ficar um terceiro dia em Esquel sem ter o que fazer?? Já não aguentávamos mais, e por isso decidimos correr o risco - iríamos a Los Alerces no dia seguinte, viajaríamos à noite e esperaríamos até segunda para retirar o dinheiro em El Chaltén. 

Quando voltamos ao centro, almoçamos e pedimos (imploramos) no posto de informações por alguma dica de passeio GRATUITO para fazer em Esquel durante a tarde. O máximo que conseguimos foi a indicação de uma caminhada leve até a Laguna Zeta, 5km distante do centro. Ela não é exatamente um ponto turístico em Esquel - mas pode ser um passeio razoável para quem, como nós, está lá e não quer desperdiçar a tarde.




Caminhamos devagar (para fazer render!), por uma estrada de terra que passa pelo meio de um bosque. Nada de maravilhoso, é óbvio, mas ainda assim bem melhor do que pensávamos! Depois de 1h chegamos à Laguna, onde existe um pequeno mirante de onde se observa suas águas tranquilas. Poderíamos facilmente ter ido de carro até lá, se tivéssemos um! 





Na volta resolvemos inovar e atalhamos pelo meio do bosque, descendo uma ladeira. Realmente chegamos bem rápido de volta ao centro, em menos de 30min!




Apesar de estar longe de ser uma atração imperdível, a Laguna Zeta pelo menos tinha salvado a nossa tarde.

Para o dia seguinte, muitas expectativas nos aguardavam. Parque Nacional Los Alerces - não perca o próximo post!








sábado, 27 de setembro de 2014

Como enviar dinheiro para outro país?

Antes de começar este post (já começando) preciso pedir desculpas por uma confusão nas datas! Nos posts anteriores, eu escrevi que fizemos a trilha do Cajón del Azul dia 2 de fevereiro, quando na verdade foi dia 3. Também disse que saímos de El Bolsón dia 4, e isso aconteceu só no dia 5. Desculpem pelo equívoco, não vai mais acontecer!!

No dia 5 DE FEVEREIRO DE 2013, então, deixamos El Bolsón para trás, com muita tristeza. Tomamos um ônibus na estação rodoviária e rumamos para a nossa próxima parada: Esquel!
O trajeto entre as duas cidades não dura nem 2h, e sai relativamente barato - cerca de R$30 por pessoa. Situada 160km ao sul de El Bolsón, Esquel estava prometendo ser um destino muito interessante. Também uma indicação do meu amigo suíço que mora em Santiago, a cidade possui diversos atrativos naturais com muitas opções de trekking, escalada, observação de pássaros, safári fotográfico e esportes radicais.




Se Esquel é totalmente desconhecida por nós, brasileiros, na Argentina não é tão diferente! Ofuscada pela fama de Bariloche, El Calafate ou Ushuaia, Esquel sofre com o desinteresse de quem viaja à Patagônia. Irresignada com o fato de não ser procurada, a cidade busca a todo custo ser vista - e o que não faltam é campanhas para promover o turismo no local! Logo ao chegarmos à cidade já recebemos diversos panfletos sobre o que fazer, onde comer, onde ficar, etc. A ansiedade em imitar os grandes centros turísticos, para talvez um dia se tornar um, é notória desde o momento em que você pisa em Esquel pela primeira vez.

Nós havíamos reservado, na noite anterior, 2 noites no hotel Sol del Sur. O preço da diária para o quarto duplo (R$ 100) era um dos mais baratos disponíveis no site do booking, por isso pensamos que se tratava de um simples albergue. Quando descemos na rodoviária, pegamos um táxi até lá e tivemos uma alegre surpresa - o Sol del Sur era um hotel de grande porte, com diversos andares, recepção 24h, um grande saguão, serviço de camareiras, internet wi-fi, computadores para uso do hóspede e tudo mais que um turista pode desejar! A localização também era excelente - em 2min de caminhada nós estávamos na rua principal da cidade, onde está o posto de informações turísticas. Tão bom ou até melhor que o nosso Hotel Internacional, onde dormimos por 4 noites em Bariloche.

Após um breve reconhecimento da cidade, ficamos com uma impressão ligeiramente negativa. Acho que tínhamos ficado tão impressionados com El Bolsón que esperávamos que Esquel seguisse na mesma linha - mas infelizmente não há a menor comparação entre as duas cidades. El Bolsón é vibrante, tem um centro turístico muito agradável e uma enorme praça central, como eu já descrevi nos posts anteriores. Já Esquel (embora tenha a pretensão de ser melhor até que Bariloche) possui apenas uma rua principal, chamada Alvear, que tem algumas poucas lojas, restaurantes e agências de turismo que organizam passeios pela região. A maior atração do "centro" é o posto de informações!

Paramos para almoçar no que eu acredito ser o principal restaurante de Esquel, localizado na esquina em frente a esse posto (infelizmente não lembro o nome do lugar e nem consegui encontrar na internet). Comemos uma comida muito sem graça e, quando fomos pagar com os nossos cartões, eles foram recusados, os dois! Alegamos que a máquina do restaurante estava com problema, mas eles foram irredutíveis - e nós, que estávamos economizando ao máximo o pouco dinheiro que nos restava, mais uma vez tivemos que pagar em espécie.

Depois do almoço, curiosos e preocupados com o problema nos cartões, resolvemos fazer um teste. Compramos chocolate em uma tabacaria, passamos os cartões e, para o nosso desespero, novamente foram recusados!

Foi aí que percebemos de fato o quão dramática era a situação. Quase não tínhamos mais pesos conosco, e só nos restavam alguns dólares - que, certamente, não seriam suficientes até o fim da viagem caso os nossos cartões não voltassem a funcionar. Fomos ao posto de informações e explicamos a situação, perguntando onde podíamos trocar nossos últimos dólares. E aí a inacreditável resposta - não havia casas de câmbio em Esquel! Eu me pergunto como uma cidade que se julga a Bariloche do futuro pode sobreviver sem uma casa de câmbio!!! Para o nosso alívio, a moça das informações disse que alguns comerciantes poderiam, em suas lojas, trocar dinheiro para nós.

Fomos até uma das lojas indicadas, La Estación, onde eram vendidas antiguidades e objetos de decoração. Conversamos com a dona, uma senhora chamada Cristina, e ela foi uma das melhores pessoas que eu já conheci em alguma viagem. Comovida com a nossa complicada situação, ela trocou para nós os dólares que ainda tínhamos, a um preço até menor do que o do câmbio oficial! Além dos dólares, como estávamos realmente numa situação extrema, ela abriu uma exceção e trocou até os reais que tínhamos levado para alguma emergência no aeroporto em Porto Alegre. Saímos de lá muito agradecidos e com dinheiro suficiente para uns poucos dias, até que o problema nos cartões fosse resolvido.

Voltando ao hotel, ligamos para as nossas famílias para que eles contatassem a empresa dos cartões de crédito e verificassem o motivo pelo qual eles não estavam sendo aprovados. Não conseguimos obter resposta nenhuma, pois aparentemente tudo estava certo e não tinha razão para ocorrer qualquer tipo de problema! Sem alternativa, pensamos muito sobre o que fazer frente àquela situação crítica. O dinheiro que tínhamos seguramente não duraria mais de uma semana, e tínhamos ainda mais 18 dias de viagem! 

Eu nunca tinha passado por um aperto desses e não fazia a menor ideia de como nos livraríamos dessa enrascada. Nossa primeira ideia foi pedir para alguém comprar nossa passagem de volta para Porto Alegre já para o dia seguinte - mas claro que isso seria caro demais e frustrante ao extremo. 

Eu pensei bastante e então tive uma ideia - meio absurda, mas que podia ser uma luz no fim do túnel! Eu poderia pedir que alguém da nossa família depositasse dinheiro na conta de alguma pessoa de Esquel, e que essa pessoa retirasse o valor no banco e me repassasse. Foi a ideia mais louca que eu já tive, e a minha única garantia seria a confiança que o receptor do dinheiro fosse honesto! Eu até faria um documento em que a pessoa se comprometeria a pagar a referida quantia, mas não tinha a menor ideia do valor legal disso na Argentina! De qualquer forma, estava disposto a tentar, e não pude pensar em mais ninguém a não ser na prestativa Sra. Cristina, da loja de antiguidades! 

Voltamos até lá e conversamos com ela a respeito. Eu pensava que ela rejeitaria a ideia de imediato, e me surpreendi muito quando ela aceitou sem maiores questionamentos, me oferecendo inclusive pagar parte do valor antes de sacar o depósito, para que eu tivesse uma garantia da sua boa-fé! Como ela não estava com o número da sua conta na loja, e como eu também ainda não estava 100% certo de que queria fazer isso, deixamos para acertar tudo no dia seguinte.

Quando voltamos ao hotel, bastante nervosos com a situação, comentamos o ocorrido com o recepcionista. Foi então que ele nos explicou sobre uma empresa chamada Western Union, que trabalha com remessas de dinheiro ao exterior. Fomos para o google pesquisar, e não deu outra - Western Union era a solução perfeita, se encaixava como uma luva para o nosso problema! Alguém das nossas famílias faria um depósito em uma agência de Porto Alegre, e um dia depois o montante já estaria disponível para retirada em qualquer correio da Argentina que fosse credenciado com essa empresa - e quase todos, felizmente, são! Em troca, a Western Union nos cobraria uma comissão de aproximadamente 10% sobre o valor da transferência. Fazer o quê, se era o único jeito?? Melhor isso do que envolver na história a dona da loja de antiguidades!

Imediatamente telefonei para o meu tio e pedi a ele que fizesse um depósito no valor de R$ 4.000 - valor que julguei suficiente para eu e meu amigo sobrevivermos até o final da viagem. Como já era noite a essa altura, o depósito seria feito só no dia seguinte, e nós poderíamos retirar o dinheiro dali a 2 dias no máximo. 

Ficamos muito felizes com a descoberta dessa ferramenta tão fácil, útil e até então desconhecida para nós (embora esteja há 150 anos no mercado - que vergonha para um viajante!!!). Fomos até a loja La Estación, agradecemos muito à Sra. Cristina e explicamos que já havíamos dado um jeito no nosso problema financeiro, não sendo necessária a ajuda dela. Cristina ficou muito contente por nós e desejou que tudo desse certo no resto da nossa viagem, deixando claro que, se precisássemos de mais alguma coisa, poderíamos voltar a procurá-la. Realmente ela não apenas era uma pessoa honesta - era uma dessas raras criaturas que se satisfazem em fazer o bem e não medem esforços para ajudar o próximo. Espero que nenhum mal-intencionado se aproveite da boa vontade dela!

Mais tarde fui pesquisar no computador sobre a possibilidade de meu tio ter feito um depósito, do Brasil, em uma conta argentina. Não era tão simples como eu pensava - e nem eu, nem meu amigo, nem Cristina sabíamos disso! O Western Union, apesar de bem mais caro, ainda era a solução mais eficiente. Tudo isso que estava acontecendo pelo menos serviria para nos ensinar como lidar com esse tipo de problema.

No dia seguinte, conforme o combinado, meu tio fez o depósito de R$ 4.000, em Porto Alegre. Será que o dinheiro vai chegar direitinho na Argentina??

Não perca a continuação dessa jornada no próximo post, além de conhecer a Laguna Zeta, em Esquel!




quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Lago Puelo - uma lancha, um susto e muita beleza!

Vamos então ao terceiro e último post sobre El Bolsón, destino de hippies e de todos os viajantes que procuram contato com a natureza longe das grandes multidões.

Logo que meu amigo suíço me falou sobre a cidade, fui para o google pesquisar o que ela tinha de bom para que merecesse ser incluída no nosso roteiro pela Patagônia. E todas as páginas apontavam para uma única e imperdível atração - o Parque Nacional Lago Puelo, que, pelas fotos, realmente prometia ser um dos "highlights" (pontos altos) da viagem!


 


Existem barraquinhas no centro de El Bolsón que oferecem pequenos descontos para quem reserva antecipadamente uma excursão de lancha pelo Lago Puelo. Como o tempo estava firme (e quente!) há uma semana, e a previsão era de mais sol e sol e sol, não vimos motivo para não fazer essa reserva de antemão - até porque só teríamos que pagar mesmo ao chegar no parque. Havia várias opções de passeios, e nós optamos pelo chamado Limite com o Chile, de 3h de duração, que custou aproximadamente R$70 por pessoa - mais uma vez pagos em espécie! 

Chegar até o lago é bem fácil. A cada 1h sai um ônibus do centro de El Bolsón que lhe deixa exatamente na entrada do Parque Nacional. O trajeto leva em média 30min. A entrada do parque é 25 pesos (R$7) por pessoa, mas idosos entram de graça e existem descontos para argentinos residentes, estudantes e crianças.

A primeira coisa que fizemos ao chegar lá foi a excursão de lancha contratada, pois já estávamos em cima da hora. A primeira parte do passeio seria uma navegação pelo lago; em seguida, faríamos uma trilha de baixa dificuldade pelo bosque e, finalmente, voltaríamos com a lancha até o ponto de partida. 




Tudo estava correndo muito bem - nós, turistas, impressionados com as cores da água, com os paredões de pedra dos mais diversos formatos e com as explicações do guia sobre a fauna e a flora daquela região. Tudo muito bonito e todos com as câmeras nas mãos - cada um queria uma foto sua na proa da lancha, com a paisagem ao fundo.





De repente, a lancha parou de se movimentar e nós ficamos à deriva no meio do Lago Puelo! Sem entender o que estava acontecendo, nosso grupo de aproximadamente 15 pessoas começou a questionar o guia. Muito constrangido, ele confessou que o motor da lancha tinha estragado, e que teríamos que aguardar até que outra embarcação viesse nos resgatar!

É claro que não chegamos a ficar em pânico em momento algum, pois a lancha não parecia estar afundando, mas não é nada agradável saber que estamos no meio do nada à espera de socorro! 

Felizmente, tudo se passou de forma rápida e eficaz: um barco maior veio nos "salvar", nós passamos para dentro dele e continuamos o passeio como se nada tivesse acontecido. Isso foi mais uma prova de que é a aventura que me persegue, e não o contrário!




Ao chegarmos em terra para a segunda parte do passeio, desembarcamos em uma praia e andamos bem devagar por uma trilha muito tranquila, para ouvir mais explicações do guia. Dentro de um bosque, chegamos ao objetivo maior da excursão - a fronteira com o Chile, onde por alguns minutos fomos imigrantes ilegais!




Depois de algumas fotos, voltamos com a lancha para o porto principal do parque, onde havíamos embarcado. Tinha sido um passeio muito agradável e, apesar do pequeno incidente, acho que todos saíram de lá bem satisfeitos.




A essa altura já era hora de almoçar, e estávamos mortos de fome! Sentamos no restaurante em frente ao porto e comemos massa para repor as energias - já que, à tarde, pretendíamos aproveitar as trilhas do parque.

Caminhamos bastante por um trajeto muito bonito, passando por bosques e praias e terminando em um pequeno morro. Subimos nesse morro (em aproximadamente 30min) e lá de cima contemplamos uma das melhores vistas que se pode ter do Lago Puelo. Essa trilha se chama Mirador do Lago e é o principal atrativo gratuito do local.




Quando descemos novamente eu estava com tanto calor que não pude resistir a um banho no Lago Puelo, conhecido por suas águas geladas até mesmo sob o sol do verão! E não fui só eu que tive essa ideia - dezenas de turistas aproveitaram aquele dia de temperatura incomum para se refrescar no gelo do lago. O choque térmico é realmente enorme, mas depois de um tempo dentro d'água você se acostuma e não se arrepende do mergulho!





Para terminar a tarde ficamos deitados em uma praia de pedras, de frente para o lago, relaxando e curtindo a beleza e a tranquilidade do maior cartão-postal de El Bolsón.

Por volta das 18h, pegamos o ônibus de volta para a cidade, onde jantamos no centro e voltamos para o albergue Rincón del Sol.

Arrumando as malas para a nossa viagem do dia seguinte, percebemos que estávamos com bem menos dinheiro do que deveríamos, pois até então não havíamos pago quase nada com o cartão de crédito! Em alguns lugares não aceitavam, em outros o cartão dava erro e em outros era mais prático pagar em espécie. O fato era que precisávamos dar um jeito nisso, afinal ainda tínhamos mais 20 dias de viagem pela frente! Prometemos para nós mesmos que, dali em diante, só usaríamos dinheiro para os casos de muita necessidade.

Deixamos El Bolsón no dia 5 de fevereiro - e já com muita vontade de um dia voltar lá, com menos pressa e (se não for pedir demais) menos calor!






No próximo post, apresento a cidade de Esquel. Fique de olho no blog!









quarta-feira, 24 de setembro de 2014

O verde Cajón del Azul

Como eu comentei no post anterior, tivemos a árdua missão de escolher apenas UMA entre as tantas trilhas que El Bolsón oferece. Acabamos optando pelo Cajón del Azul - cujas fotos de uma água turquesa nos atraíram demais! 

O primeiro procedimento, para quem deseja se aventurar nos bosques e montanhas, é deixar seu nome e um telefone para contato num livro de registros do posto de informações da cidade. Assim eles podem ter um controle de quantos turistas estão em cada trilha, e podem acionar socorro caso alguém demore demais para voltar. El Bolsón é ou não é primeiro mundo??





Logo que saímos do Rincón del Sol (nosso albergue), sentimos um frio absurdo! Era por volta de 7h30 de manhã, e estava soprando um vento tão gelado que chegamos a voltar para pegar mais casacos. Só que dali a menos de 1h o tempo já começou a esquentar, esquentar, esquentar - até quase chegar a 40ºC no início da tarde! Ficamos surpresos com tamanha amplitude térmica no mesmo dia - pra quem fala que viver no RS é difícil por causa do clima, queria ver morando em El Bolsón!

Existem ônibus com frequência de meia em meia hora que saem do centro da cidade (bem próximo ao posto de informações) e levam até a Chacra de Wharton, ponto de partida para a trilha. Logo na descida do ônibus existe um restaurante onde você pode comprar água e sanduíches para levar na mochila. Os preços não são tão bons, e eu acho melhor você comprar algum lanche nos supermercados de El Bolsón, antes de ir para Wharton. A água dos rios que atravessam a trilha obviamente é potável - basta um olhar para saber que uma água tão cristalina assim está mais do que pronta para o consumo. Você só precisa levar garrafinhas de plástico para ir enchendo ao longo do caminho.




Começamos a caminhar, sempre seguindo as abundantes placas e sinais - tem que ser muito habilidoso para se perder no Cajón del Azul! O começo da trilha é uma descida de um pouco mais de meia hora por um caminho pedregoso. Foi já nessa parte que fizemos amizade com um casal de argentinos, de Buenos Aires, que estavam caminhando perto de nós. Muito simpáticos e falantes, ele nos obrigaram a pôr em prática nosso espanhol que até então estava bem guardado.

Ao final da descida, passamos por uma frágil ponte de madeira (com capacidade máxima de UMA pessoa por vez!) e atravessamos um rio.




Pouco tempo depois, outra pontezinha - e esta, a maior recompensa e também uma das paisagens mais incríveis que eu já vi! Dispensando palavras, aí vão as fotos: 









Muito mais bonito que todos os rios e lagos juntos que nós tínhamos visto em Bariloche! E de graça, acessível a todos, exigindo apenas uma leve caminhada! E pensar que nossos planos eram ir embora de El Bolsón sem ter visto esse espetáculo da natureza!

O resto da trilha também é interessante, mas nada que se compare com esse primeiro cenário. É um percurso extenso,  cheio de subidas e descidas, que demora de 7h a 8h (contando ida e volta). Pelo caminho você encontra refúgios - lugares onde pode parar para descansar, tomar café, comer um lanche e se recompor para mais um trecho de caminhada. Além disso, para aquelas trilhas mais longas, você pode até mesmo dormir nos refúgios - em geral por um preço bem módico!

Mas falando em café, preciso continuar puxando o saco de El Bolsón - afinal, o ÚNICO café bom que tomamos, em 26 dias de viagem pela Patagônia, foi em um dos refúgios dessa trilha (se eu não me engano, o refúgio da Plajita). Na Argentina eles têm o costume de tomar café fraco - até aí tudo bem, pois eu também gosto de café fraco. Só que o fraco deles não passa de uma água suja, uma coisa tão sem gosto que mal se pode chamar de café! Em menos de uma semana nós já tínhamos até perdido as esperanças - mas por incrível que pareça, nesse refúgio no meio do nada, uma grata surpresa nos esperava: um café de saquinho! Foi a primeira vez que eu vi isso, até então achava que saquinho só se usava para chá. Pois não é que a tal invenção deu muito certo?? O dono do refúgio esquentou numa caneca a água tirada direto do rio e adicionou o café. Esperou uns 3min, nos serviu e pronto - estava eleito o melhor café de toda a viagem!




Fechando o parêntese sobre o café (cada vez que lembro de alguma coisa me desvio do assunto!), nós conseguimos manter um ritmo muito bom de caminhada, junto com o casal de argentinos. Nosso objetivo era chegar até o famoso Cajón del Azul - que, ao final, se revelou a grande decepção do dia. Era uma espécie de cânion, entre cujos paredões corria um rio. Mas nós só podíamos ver isso de cima de uma ponte, e sinceramente - andar tudo aquilo para tirar ESSA foto???



Aí vai então uma dica para você: faça a trilha do Cajón del Azul somente até chegar naquele rio de água verde com a ponte de madeira! Não vale a pena caminhar mais tantas horas para não ver nada nem parecido com o que você pode ter em menos de 1h! Poupe seu tempo e suas pernas!

Depois do Cajón continuamos caminhando por mais um tempo até o próximo refúgio - o Retamal. De lá, após comer os lanches que tínhamos levado, pegamos a trilha do Nascimento do Cajón del Azul, um lugar muito bonito com uma cachoeira e uma atmosfera inabalável de tranquilidade. Não é a toa que os hippies adoram El Bolsón e sua natureza - tudo lá é paz e amor.




Em seguida, voltamos pelo mesmo caminho da ida, já que infelizmente a trilha não é circular. 

Pegamos o ônibus de volta para o centro de El Bolsón, ainda junto com o casal de argentinos. Como eles iam descer num ponto antes do nosso, nos despedimos no ônibus - e aí ainda mais uma surpresa: na frente de todo mundo, os dois nos cumprimentaram com beijos no rosto! Assim como muitos povos pelo mundo, os homens argentinos também beijam outros homens no rosto. Foi bem estranho para nós, mas logo vimos que ninguém mais no ônibus tinha sequer reparado naquilo! Afinal, eles que eram os "normais", e nós o povo exótico cheio das "nove-horas" para se despedir.

Quando chegamos no centro, fomos direto ao posto de informações agradecer as dicas da atendente e avisar que tínhamos chegado sãos e salvos - e que os nossos nomes já podiam ser riscados do livro de registros da trilha. É muito importante que você faça isso ao voltar, porque senão eles vão ter que lhe telefonar para saber se está tudo bem.

Antes de dormir, pensei e concluí que o dia 3 de fevereiro tinha ficado marcado como o melhor dia da viagem até então. Apesar de termos passado o tempo todo caminhando e cansando as pernas, o dia tinha sido o mais surpreendente possível:

- a temperatura mudou demais;
- o Cajón era sem graça;
- a ponte no rio de água verde valeu o passeio inteiro;
- conseguimos tomar um ótimo café de saquinho;
- fizemos novos amigos;
- tivemos uma despedida inusitada no ônibus!

Algumas surpresas boas, outras nem tanto - mas afinal viajar é isso, é estar sempre aberto para os imprevistos e tirar de tudo o maior proveito possível!

No próximo post, um pedacinho do Chile - vamos conhecer o famoso Lago Puelo!








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